Connect with us

Entrevistas

Entrevista – Renato Zanetti

Entrevista – Renato Zanetti

O CEO de uma das maiores equipes da América Latina abre o jogo. Em conversa com a redação do F1BC, expõe os momentos mais marcantes de sua carreira como piloto, como descobriu o esporte, uma visão crítica do automobilismo nacional e o desafio de estar à frente da Alliance Sky.

Por André Neves

Conciliar uma paixão com a vida pessoal e profissional, uma das tarefas mais difíceis para os amantes do automobilismo. Um esporte que proporciona sensações intensas, que consome horas e horas de treinos e coloca pessoas na posição de um piloto, um piloto virtual. Mas em uma simulação completa, também existem as questões administrativas. Todo piloto virtual ou quase todo possui uma equipe e consequentemente, a equipe, precisa de um líder. A redação do F1BC escolheu então, para abordar pela primeira vez o assunto, o chefe de equipe da Alliance Sky Racing, Renato Zanetti. Na reportagem, conhecemos não só o piloto e Manager da equipe, mas também a pessoa por trás do número 417.

Renato Pinheiro Zanetti é natural de São Paulo, mas atualmente vive em São Bernardo do Campo. Analista de File Transfer, profissão ainda pouco conhecida no país, encontrou no automobilismo uma admiração profunda e, no automobilismo virtual, uma paixão. Sentimento capaz de fazê-lo abdicar de seu tempo para hoje, aos 25 anos, ser o líder de mais de cinquenta pilotos na Alliance. Em sua vida, Renato passou por diferentes empregos, apoiado sempre na ânsia de aprendizado. Ainda sem um diploma de faculdade, mira um curso superior como o próximo objetivo.

Para contar sua história dentro e fora do automobilismo virtual, Renato Zanetti é o Lucky Dog da quinzena. Durante a entrevista, com duração de 1h45, Zanetti mostrou em diversas vezes o amor que sente pelo esporte, mas também o descontentamento com a atual situação do automobilismo brasileiro. Além de críticas ao presidente da CBA, falou sobre a falta de oportunidade para os jovens pilotos e também a inacessibilidade do esporte às classes sociais mais baixas.

F1BC – Bom Renato, você poderia começar explicando um pouco mais de sua profissão. O que faz um analista de File Transfer? Você sonhava em trabalhar com isso quando era criança?
Renato Zanetti – A empresa onde trabalho oferece instalações suporte de plataformas e programas que proporcionam transferência de arquivos, da forma mais segura possível, para empresas que precisam de sigilo nessas trocas de informações. Eu sou uma das pessoas que cuidam para que esse ambiente permaneça funcionando. Também mantenho as transferências dentro do prazo estabelecido para as empresas. E eu não esperava trabalhar com isso, mas como eu nunca fugi de um trabalho, estamos aqui. (Risos)

F1BC – E como se deu essa proposta de emprego, já que não era um sonho que você tinha?
RZ – Na verdade, eu trabalho há sete anos como analista de TI, em diversas áreas, mas nunca fiz um curso. Eu sempre aprendi muito sozinho, por todos os lugares que passei. A proposta nessa empresa surgiu de um amigo. Eu precisava mudar de cidade e teria que largar meu antigo emprego. Ele sugeriu então, que eu trabalhasse com ele, nessa função. Estou há pouco mais de dois meses, precisando aprender praticamente tudo sobre File Transfer porque, até então, eu não sabia nada.

F1BC – Você mora hoje em São Bernardo do Campo. Como está sua vida pessoal?
RZ – Eu nasci em São Paulo, mas eu morei em São Bernardo a vida inteira. Em 2009, me mudei pra São Vicente e morei por quase dois anos lá, com minha ex-mulher. Hoje, estou de volta a São Bernardo, solteiro e morando com os meus pais.

F1BC – Solteiro e pronto para as baladas.
RZ – (Risos) Eu tenho certeza que você vai colocar isso na entrevista.

F1BC – Não vou, pode ficar tranquilo. Sobre o AV, você ganha destaque hoje como chefe de equipe de uma das maiores equipes do país, levando em consideração o número de pilotos e também patrocínios. Mas como foi seu início como piloto?
RZ – Foi em 2009, quando eu peguei um volante da marca Clone, de um amigo, para brincar com um MOD de rFactor. Quando gostei da brincadeira, já pulei pra um Momo e por uma coincidência, enquanto procurava o Momo, eu descobri o F1BC e comecei a conversar com o pessoal de um fórum. Eram eles Fabrício Magri, Daniel Krauze e Pedro Shaw e foram as primeiras pessoas que conheci no meio. Depois de alguns meses conversando com eles, eu e o Magri decidimos criar a Alliance para correr de Turismo Junior no F1BC, junto do Krauze e do Shaw, onde conquistamos o primeiro título por equipes na categoria, além do título de campeão na Turismo Classic, com o Krauze. Eu nunca achei que fossemos chegar tão longe, mas foi algo que me dediquei muito, me doei muito para dar certo. Tanto emocionalmente como em tempo e trabalho.

F1BC – As pessoas costumam ver só a parte boa de ser um chefe de equipe como a Alliance, mas eu queria que você falasse um pouco das obrigações de um chefe de equipe, os problemas que enfrenta e também, se já houve algum momento em que pensou em abandonar o posto.
RZ – Bom, no começo da Alliance, éramos eu e o Magri que administrávamos a equipe. Após uma discussão, alguns meses depois, ele decidiu que iria deixar o posto e eu assumi a equipe integralmente. Ele disse que estava com problemas pessoais e que não pensava mais em correr e depois disso abandonou a equipe e o AV de maneira geral. Nesse momento em que ele saiu e deixou o barco só para mim, achei que talvez não fosse dar conta e pensei em deixar para lá. Mas foi a única vez e graças a Deus não fiz isso. Hoje, sou líder da equipe, mas eu não teria como dar conta da estrutura da Alliance sozinho. Por isso, eu tenho o pessoal da diretoria que me ajuda muito, que é o Rafael Medeiros, o Victor Garcia e o João Nóbrega, além do meu staff que é composto por Eduardo Bonilha, Guilherme Cavalli e Wagner Matos. Não digo que é fácil administrar 50 pilotos porque não é. Manter o pessoal animado com os campeonatos, manter a galera com pegada do início ao fim, é o mais difícil que eu tenho a fazer.

F1BC – Sua equipe conta hoje com o apoio de empresas de nível nacional e internacional. Em um esporte que o investimento ainda não é considerado seguro, como foram as negociações para fechar contrato com essas empresas? Qual é o panorama geral do automobilismo virtual nesse sentido?
RZ – Os patrocinadores são muito importantes, não só em questão de servidores que temos para pagar, hosting de site, enfim. Não é só isso. Nós acreditamos em trazer um retorno para as empresas que nos apoiam. Com o dinheiro deles, atualmente, temos tentado fazer ações que geram visibilidade para todos os nossos patrocinadores, mais até do que em benefícios para a equipe. São várias coisas que estamos planejando para o final desse ano e início de 2012. Acho que não é mais só um fornecer o dinheiro e o outro estampar o selo no carro, isso não é o suficiente. No sentido do automobilismo virtual, ao passo que vejo muitas empresas acreditando, vejo também algumas outras com um receio muito grande e, infelizmente, isso não é bom. Mas, aí é muita coisa envolvida, preconceito de achar que isso é um jogo, a forma dos próprios pilotos tratarem. Tem gente que simplesmente não trata (o AV) da forma como eu pelo menos acho que deveria. Existem pilotos virtuais hoje que se comportam como gamers e isso não é o que a gente busca, não é o que acho correto. Eu acho que as pessoas deviam divulgar mais, tratar isso de uma forma mais séria e também acho que as empresas deveriam dar um pouco mais de crédito para tudo isso que fazemos, não é pouca coisa.

F1BC – Desde quando você acompanha automobilismo? Qual seu maior ídolo no esporte?
RZ – Eu não sei dizer com quantos anos eu comecei a gostar, mas eu tinha e tenho até hoje uma fita com os melhores momentos da temporada de 1989 da Fórmula 1. Ela está intacta até hoje e acho que já assisti umas cinqüenta vezes no mínimo. Foi um campeonato onde o Senna perdeu, com toda aquela polêmica com o Prost e isso só me fez ter muita raiva dele. Lembro dos campeonatos de 90, 91, 92, 93. Eu não entendia porque o Senna estava na Mclaren, o carro já não prestava. Comemorei horrores quando ele foi pra Williams em 94, por ser o carro da vez. E eu lembro exatamente o que fazia, o que falava com meu pai, quando aconteceu o acidente com ele. Aquilo foi o que mais marcou no esporte e em minha vida também. O Senna sempre foi um ídolo, como piloto, como pessoa, seus ideais. É quase uma unanimidade no nosso meio e comigo não poderia ser diferente.

F1BC – Já teve pretensão de ser piloto algum dia?
RZ – Há alguns anos atrás sim. Uns cinco ou seis anos, tive a idéia de andar de kart profissionalmente, mas desanimei logo de cara. Simplesmente pela situação financeira, por saber o quanto isso ia demandar, eu não tinha condições.

F1BC – Sobre essa questão de inacessibilidade, você acha que o automobilismo no Brasil está muito fechado para a elite, por conta dos custos? Não deveria haver um investimento maior por parte da CBA em futuros pilotos, já que encontramos uma fase muito ruim de talentos no automobilismo?
RZ – Pra mim hoje falta tudo. Falta investimento, estrutura, boa vontade, idéia, bom senso. O automobilismo brasileiro hoje é quase nulo. O presidente da CBA pra mim não deveria ser presidente de nada, nem da banquinha de jogo da esquina, porque além de não ter competência, não está interessado em fazer algo diferente. E quando alguém não tem boa vontade, não ama aquilo que faz e não quer o melhor, ele não deve estar lá. Eu acho que nós temos muitos bons pilotos que simplesmente não tem condição de continuar no esporte. A quantidade de pessoas que tem verdadeiro talento para isso e não pode por simplesmente não ter condição é absurda. Um exemplo que todo mundo vai conhecer e tenho certeza que vão concordar é Gustavo Yanez. O cara é um baita piloto! Correu uma etapa da Marcas e Pilotos em São Paulo, com a ajuda de patrocinadores e dinheiro que conseguiu e para uma corrida, ele foi muitíssimo bem. Eu juro que depois que fui ver o Yanez correr em Interlagos, meu sonho era que ele pudesse correr uma Copa Montana, uma Stock Car, e por mais que eu acredite no talento dele, é difícil. Estamos na mão da elite, de quem tem dinheiro, de quem tem condição de bancar. Aí você fica naquela, de você ter as duas coisas, o talento e a condição.

F1BC – Você nos disse como nasceu a Alliance, falou dos patrocinadores e das dificuldades. Agora eu gostaria que você comentasse o lado bom. Qual o prazer que você sente de estar à frente da equipe. O prazer de entrar no cockpit desse carro amarelo e preto e o que ela representa para você.
RZ – Cara, a Alliance foi o projeto pessoal que mais deu certo na minha vida. O orgulho que eu sinto dela e de ter conquistado os amigos que conquistei aqui não tem preço. Sou muito abençoado de ter conseguido tudo isso. Óbvio que não fiz nada sozinho, os meus pilotos são a razão da equipe ser o que ela é, na verdade. Eu só dei a estrutura e a oportunidade de eles representarem uma grande equipe, o sucesso eu devo todo a eles. Desde já fica meu muito obrigado aos pilotos da Alliance, aos pilotos que já passaram pela equipe e que deixaram sua contribuição de alguma forma. Então, o que a Alliance representa pra mim, pra minha vida, é algo que não tenho palavras boas o suficiente para descrever.

F1BC – Se você pudesse escolher agora, o seu melhor momento como piloto e o momento mais frustrante, quais seriam?
RZ – O momento mais frustrante foi quando perdi uma corrida da Turismo Light na T2/2010 para o Bruno Pastore, por falta de combustível. Aquela corrida foi o momento mais frustrante, porque foi um puta fail desgraçado aquilo (Risos). Eu parei uma volta mais cedo no primeiro stint e ela fez toda a falta no final e eu me ferrei. Cheguei em terceiro, não tinha como perder e perdi por burrice. O momento mais feliz foram vários na verdade. Como piloto, foi quando eu venci pela primeira vez aqui no F1BC, em Sebring. Eu me dediquei muito, de uma forma que isso fosse realmente possível. Então quando eu venci aquela corrida, foi o momento mais feliz, mas acho que o ponto mais alto da carreira foi na T2/2011, quando disputei o título da Turismo Light até o final.

F1BC – E o momento mais engraçado?
RZ – O mais engraçado cara (Risos). O mais engraçado foi na última corrida da T2/2010 da Turismo Light. Eu estava em segundo, com o Daniel Krauze em primeiro. É a razão que (Risos), eu levo o apelido de David Coulthard até hoje. É também a razão do meu capacete, já que eu incorporei ele outras vezes. Mas o meu HUD deu pau e eu não sabia se tinha combustível para mais uma volta ou não, aí o que aconteceu. Eu pensei: não, eu vou parar, não, não vou. Não, eu vou. E eu acabei não indo pra lugar nenhum, porque eu bati no meio do muro da entrada do pitlane, capotei o carro inteiro, quebrou tudo e eu tive que abandonar a corrida. Foi o pódio mais perdido da história do AV!

F1BC – (Risos). Você gostaria de falar um pouco mais sobre os patrocinadores da equipe?
RZ – Hoje nosso principal patrocinador é a Game Place. Queria até mandar um abraço para o Paulo Sanchez (Risos). Agradecer a confiança no nosso trabalho, que eu sei que não é fácil para ele apoiar as equipes que ele apoia, já que o retorno infelizmente é difícil e isso não ajuda o AV de uma maneira geral. A Mak Corp é uma empresa australiana de desenvolvimento de MOD, software e hardware. Acabei criando uma amizade muito grande com o presidente da empresa e eu sou muito grato a ele pela confiança que ele tem em nossa equipe. A RCenter é uma empresa que eu tenho muito orgulho de ter no carro. E aconteceu que, muita gente acha que a empresa patrocina porque o dono é piloto, mas aconteceu o contrário. O dono virou piloto depois que começou a patrocinar e a amizade com o Rodrigo Mengue é uma coisa bem bacana que temos. E hoje, a 7 contabilidade é a empresa que banca a idéia mais bacana que já vi. Ela está sendo responsável por toda a premiação dos pilotos da Alliance. É uma forma de estimular os pilotos e também proporcionar algo que eles possam mostrar para as pessoas, algo que eles conquistaram, que são as medalhas personalizadas que vamos entregar no fim do ano.

F1BC – Como se deu a fusão com a equipe Skyline?
RZ – A Alliance sempre foi uma equipe voltada para os mistos, nunca conseguiu andar nos ovais. E aconteceu que eu vi uma vitória do Nóbrega na IVR e eu vi a equipe. Entrei no site, gostei muito do que vi e me surgiu à idéia. A Skyline só corre em ovais e nós não entendemos de ovais. Quão bom seria isso para ambos? Chamei o Nóbrega para conversar, expus a idéia e foi uma negociação breve, porém muito boa e que hoje já estamos colhendo os frutos. Foi uma decisão muito difícil para tomar, mas o pessoal se entrosou muito bem. A equipe está melhor do que nunca e com certeza foi uma decisão acertadíssima, uma das mais difíceis e acertadas que tivemos e eu sou muito grato ao pessoal que era da Skyline, por ter aceitado fazer parte da Alliance. Agora essa família cresceu e todo mundo está muito unido e comprometido com a equipe, os ideais e fazer a equipe ser uma das mais vitoriosas.

F1BC – Como você encara a questão de rivalidade entre pilotos, equipes? Considera isso algo positivo ou negativo no AV?
RZ – Rivalidade como em qualquer outro esporte sempre vai existir, é algo que não dá pra escapar. Nós já tivemos nossos problemas por isso, com várias equipes e pilotos por brigas e discussões em campeonatos específicos. Algumas dessas rivalidades perduraram, mas eu acho que é algo natural do ser humano. Você acabar por simpatizar mais com uma equipe ou piloto e menos com outra. Tenho consciência de que a Alliance, apesar de ser uma equipe que muitos gostam, também é odiada por muitas outras pessoas e aí já entra rivalidade, como também preconceito por não saber como as coisas funcionam aqui e tratar somente de aparências.

F1BC – E para finalizar, alguma mensagem para os seus pilotos e para todos os envolvido com o F1BC e com o AV de maneira geral?
RZ – Bom, eu gostaria de pedir, por favor, para que toda vez que vocês forem falar do AV para alguém, que não tratem como um jogo. Diga que você é um piloto virtual, porque você é um. É assim que as pessoas deveriam ver. O F1BC é um campeonato organizado, sério. Possui sua estrutura, seus patrocinadores, suas metas. Todo mundo se diverte porque tem prazer correndo, mas eu tenho certeza que muita gente gostaria de ver o AV cada vez mais forte, mais conhecido pelas maiores mídias, pelo público em geral. Eu acho que todo mundo tem a lucrar, essa é a mensagem. Eu sei que muitos não gostam da Alliance e sei que muitos não conhecem o suficiente para não gostar. Peço para que não só com minha equipe, mas com todas as outras equipes, que as pessoas sejam menos preconceituosas a respeito de quem elas não conhecem. Para o pessoal da Alliance é agradecer, de novo, do fundo do coração pela amizade, companheirismo, apoio que me deram para continuar como chefe dessa equipe e agradecer pela amizade, por serem pessoas fantásticas e ótimos pilotos. Estamos juntos e vamos em frente, tentando levar a Alliance ao topo.

More in Entrevistas