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A perfeição que atrapalha a F1

A perfeição que atrapalha a F1

As mudanças que o grupo estratégico da Fórmula 1 propôs são boas, mas é só uma parte daquilo que pode melhorar. A escala de prioridades é diretamente proporcional a dificuldade em aplicar suas mudanças. Distribuição de lucros entre as equipes, corridas mais imprevisíveis, e carros mais velozes e agradáveis.

Basicamente, o que a reunião entre FIA, FOM e equipes mostrou foi que o primeiro item está fora de cogitação. Nenhuma equipe aceitará ganhar menos do que atualmente. Não adianta nem discutir. E isso a longo prazo será um problema dos grandes, mas é história para outro dia.

O segundo ponto é o das corridas serem mais imprevisíveis – ou emocionantes, como queiram. O automobilismo chegou ao auge da exatidão por conta das evoluções tecnológicas e dos milhões gastos, e aplicar esta perfeição necessariamente significa tornar as corridas mais previsíveis. Como a Fórmula 1 é o topo do esporte a motor em termos tecnológicos e de investimentos, seu destino sempre será o de competição mais previsível do que as demais.

Há pouco a se fazer para que a Fórmula 1 se torne mais imprevisível, e que nem sempre o melhor conjunto de carro e piloto domine uma temporada, satisfazendo assim ao público. Não é relativo a reabastecimentos, liberar tipos de pneus, nem dar maior liberdade para design aerodinâmico. As escuderias chegarão facilmente às melhores soluções possíveis, tomarão decisões semelhantes, e o know-how de cada uma indicará qual delas dominará uma temporada.

Só o que poderia equilibrar as disputas, como ocorria no passado, é diminuir a perfeição. Aumentar as possibilidades de erros, seja em estratégia, pilotagem, pit stops ou acerto do carro. Como fazer isso?

Limitação em telemetria e em comunicação dos engenheiros com os pilotos durante o tempo em que estão na pista poderia ser a mudança mais corajosa. Mas as equipes não o farão. Elas caíram em uma armadilha criada por elas mesmas: o desejo da complexidade dos sistemas, unidade de força, ajustes e tudo o mais. Chegou ao ponto que, caso não haja um monitoramento sobre as temperaturas dos componentes, e caso o piloto não possa mudar alguns mapeamentos através dos botões no volante, o equipamento simplesmente falhará.

Os sistemas de um Fórmula 1 precisam ser mais independentes da operação e do monitoramento a longa distância, para que possam aos poucos se tornar confiáveis e as equipes enfim aceitem uma redução na quantidade de telemetria e de quantidade de ajustes possíveis pelas mãos do condutor.

É com esta impossibilidade em saber o acerto perfeito do carro para determinada pista que o equilíbrio virá. E é sem a equipe e o piloto poderem controlar tudo no carro que a incerteza durante a corrida aparecerá, e os competidores deverão assim ser os navegantes solitários, concentrados na pilotagem e usando da coragem em arriscar o limite.

O terceiro e último ponto de debate é sobre os carros em si. A parte externa dos Fórmula 1 mudarão e caminharão um pouco para o passado – menos aerodinâmica (o que não me agrada), pneus mais largos, asas maiores, reabastecimento, som dos motores um pouco mais alto. Será suficiente para as crianças desta geração pregarem pôsteres dos carros na parede de seus quartos, como eu fazia?

Antigamente não havia jogos ou simuladores de corrida, e a sensação de pilotar um F-1 ficava no imaginário do público. Hoje muitos podem sentir um pouco do que é guiar os bólidos, o que tira um pouco da magia em torno do esporte. Cabe à F-1 preservar esta magia fazendo carros rápidos e agressivos. É o que provavelmente eles desejam.

O grupo que decide os rumos na Fórmula 1 mostrou interesse em mudar. É pouco por enquanto, mas é o embrião do que poderia ser um projeto maior, a longo prazo, que torne as corridas mais imprevisíveis e os carros mais rápidos e mágicos. Porém F-1 é o ápice da tecnologia, portanto, acostumem-se com a perfeição.

Rodrigo Steigmann é diretor do F1 Brasil Clube e do grupo F1 Brasil de mídias sociais. Jornalista com passagem por revistas e websites especializados em automobilismo, também já atuou em assessoria de imprensa para pilotos, equipes e marcas nas mais variadas categorias do esporte a motor nacionais e mundiais.

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